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Há Em Nós Qualquer Coisa

Vidas de 400 palavras.

Há Em Nós Qualquer Coisa

Vidas de 400 palavras.

Lama, cal e coração.

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Lembro-me do meu primeiro jogo. O mister Vilela atou-me as botas enquanto tremia como varas verdes. Nem era dos nervos propriamente, mas sim porque chovia desalmadamente e o aquecimento tinha regado o pelado ao ponto dos seus socalcos de terra dura serem agora mini-piscinas onde pés de pré-adolescentes se enterravam para nunca mais serem vistos. Sacudi alguma da lama e da cal, que ameaçava fazer arder aquelas feridas nos joelhos que teimavam em não cicatrizar, porque havia sempre mais um carrinho, uma disputa aguerrida mas leal, um tropeção nos tais buracos do nosso “tapete” de futebol. Os nossos corpos novitos recuperavam depressa, mas não de um treino para o outro.

A chamada feita pelos homens do apito e bandeirolas incutia sentido de respeito. É nesta altura que o coração aquece ao mesmo tempo que os pés enregelam. Mas neste momento isso já não interessa. Lidaremos com as bolhas, as raspadelas e as mazelas de alma de um resultado menos animador depois.

Perfilamos e sentimo-nos jogadores. Daqueles a sério, que na minha altura já eram venerados na televisão como deuses. O silêncio sepulcral de um minuto de silêncio. Confesso que ninguém nos tinha explicado a razão dele acontecer, mas o silêncio tem destas coisas que se alojam no entendimento do que é ser gente e sentir. Longos são os anos dentro de um só minuto. Pensa-se em tudo: naquele adversário que todos dizem ser o melhor, na ficha de ciências da segunda-feira, do jantar de anos do irmão naquela noite, no pequeno furo na biqueira da bota da Ritex que começa a desabrochar. E ainda agora a época vai começar.

A tensão do pré-apito inicial. “Ativa!” – grita-se do banco. Sei lá o que é ativar. Dou uns saltos como os outros, rodo a cabeça e fico imediatamente tonto, mesmo quando o apito soa e se dá início à batalha enlameada contra o outro clube da terra.

Setenta minutos de luta. De bolas pelo ar e de central a cabecear, pesando a bola com a água mais do que chumbo e ferro conjugados em liga resistente. Não há tempo para queixumes: a ação vive-se uma disputa de cada vez, um ressalto, um lançamento, cantos de cotovelos no ar, de incentivos ao “mais vale chore a tua mãe que a minha”. Momentos de êxtase e depressão na sua mais pura e inusitada forma, por vezes em simultâneo. O golo em redes opostas tem o poder, a potência, a sobranceria de tornar ídolos e malfeitores nas cabeças de gente pequena que apenas quer ser como os grandes.

O intervalo e o chá quente. A palestra que destruía num momento, que responsabilizava, para no instante seguinte ser o mesmo menino-jogador ser revigorado com um toque na nuca e um reajustar de botas e cordéis para que as velhas meias não se espraiassem nos famigerados pitons de alumínio.

O apito final. Seguia-se o ranger de dentes de uns e o sorriso exagerado de outros. Uns ganham, outros perdem. Sempre assim foi e na vida também o é. Mais vale aprendermos isto cedo, para que percebamos que na vida vamos perder mais do que ganhar e que há que dar valor às vitórias, por mais insignificantes que pareçam.

Lembro-me de ficar a olhar para a velhinha bancada cheia de pessoas que festejavam com uns e batiam palmas aos outros, reconhecendo o esforço de todos. As minhas pernas estavam ensanguentadas, o coração parecia querer sair pelo tubo digestivo. Valeria a pena. E eis que o mister chegou ao pé de mim, me deu um calduço forte, que me desbloqueou de quaisquer pensamentos de desistência. “Tavares, segunda há treino!” E só parei de levar calduços, porrada, abraços, reprimendas quando a vida e a minha evidente limitação no desporto-rei me inteirou que tinha chegado a altura de estar agora na velhinha bancada a torcer por outros miúdos cheios de cal e lama da cabeça aos pés, de coração quente e pés gelados.