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Há Em Nós Qualquer Coisa

Vidas de 400 palavras.

Há Em Nós Qualquer Coisa

Vidas de 400 palavras.

Na Cozinha da Avó.

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Esta minha nossa cozinha faz lembrar um cérebro. Desarrumada, caótica, mas com tudo no sítio. No meio do que parece ser um pânico generalizado de cozinha ocupada por muitos, como foi durantes décadas, existem quadros imutáveis, que respeitam os teus gostos, a forma dedicada como mantinhas tudo à tua maneira, realçando sempre tudo o que podia transparecer o teu amor aos teus filhos, netos e a Deus. Sim, a ordem não terá sido sempre esta. Mas tenho a certeza que Deus não se importa de ser relegado para papel secundário... Ou não é ele omnipresente e omnipotente?

No lado esquerdo da entrada, numa enorme mesa de pedra mármore, está o altar, onde sempre fizeste questão de reunir todos os que te eram queridos. Pais, filhos, família afastada pela vida ou pela morte, vizinhos. Todos os que eram teus, por sangue ou afinidade, tinham o seu lugar no mármore branco desgastado e polido. Uma fotografia não substitui um abraço apertado, um beijo terno ou dois dedos de conversa cúmplice. Tu bem o sabias. Mas sempre que nos querias ver, puxavas a tua cadeira de verga favorita que estava sempre colocada ao pé do fogão, junto à janela onde fazias renda quase de forma meditativa, e ficavas horas a contemplar-nos a todos. Sempre falaste com os nossos retratos. Sorrias, perguntavas como corria a vida, davas-nos conselhos, ralhetes e enviavas-nos muito carinho e muitos beijos. E quando sentia o meu coração a aquecer de forma exuberante, quando me alegrava sem razão aparente, sabia que estavas junto às nossas fotografias de criança a afagar-nos e a proteger-nos. Como sempre fizeste e farás.

De frente, rodeado de retratos dos filhos e plantéis de luxo do Benfica de outros tempos, estava o móvel que nos baralhava. Na parte de cima guardavam-se os papéis de valor, as canetas inacessíveis às crianças, os pratos de barro decorados com as típicas flores de cores sortidas, e os "amarelos", que exigiam limpeza com óleo próprio e esfreganço impetuoso, tarefa essa que não delegavas a ninguém, pois sabias bem do trabalho que dava. Tinha também alguma da cristaleira, que servia para ocasiões especiais. Nunca os vi usados, permanecendo incólumes e imutáveis no topo do móvel.

Mas na parte de baixo do até agora austero e adulto móvel tudo mudava. Ao abrir ambas as portas víamos um mundo que era bem familiar e fazia a alegria dos mais novos e dos outros que de velho só tinham a cápsula que revestia a sua alma jovem e libertina. Doces, guloseimas, o pão de azeite estaladiço que era perfeito para mergulhar num mar de leite com chocolate, as boleimas de maçã e de canela fresquinhas acabadas de vir da padaria do centro da aldeia. O cheiro do café acabado de fazer, a azáfama de mais um dia de "dolce fare niente". Todas as refeições tomadas em círculo, à volta duma pequena mesa de madeira, sempre composta pelas saias e pela toalha de plástico, com a ventoínha de metal a resfrescar-nos nos áridos dias de calor, e no interior da mesa, uma braseira de picão que fazia com que adormecesses sempre depois de jantar...

Do fogão a lenha que compraste com muito sacrifício, colocado perto da chaminé, saiam as melhores iguarias de forma consistente. Talvez por isso tenhas criado dois filhos que apanharam o teu dom na cozinha... E no ocasional exagero no sal. Para ti a comida tinha que saber a algo, tal como a vida. O sal da vida torna tudo mais apetitoso, dá mais sabor a todas as vivências e ajuda a que o sal das lágrimas perca intensidade, tentando não dar demasiada importância ao mau, exponenciado o bom que sempre nos trouxeste.

Acabou assim esta visita pela cozinha da minha vida pequena. Celebrar-te-emos sempre, colocando o teu lugar junto à janela sempre que lá nos unimos. E será sempre assim. Mais um quadro imutável.