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Há Em Nós Qualquer Coisa

Vidas de 400 palavras.

Há Em Nós Qualquer Coisa

Vidas de 400 palavras.

Nada deves.

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A vida no campo começava cedo. E para ti não foi exceção. Ansiavas por aprender na escola, conhecer o mundo e como tudo funcionava. Querias saber do sol, da lua e de todos os astros. Da roda que rodava o mundo. O mundo era a tua ostra se te ensinassem a abri-la.
Mas a vida tinha outros planos para ti. O auxílio da família tinha prioridade. O bem de todos sempre se superiorizou aos interesses pessoais. Os tempos eram duros, a sardinha dividia-se e falava-se entre dentes. Deus, Pátria e Família substituíam o teu umbigo vazio de ensinamentos, mas enchiam a barriga dos doze lá em casa...
O teu nome é António. António Maria. António do pai, Maria da santa que agraciou o teu nascimento, padroeira da terra de teus pais. Sempre foste um infante curioso, que estragava irremediavelmente a bicicleta de três gerações ao tentar arranjá-la, tentando perceber como tudo funcionava. Olhavas para as rodas dentadas, correias e cabos como quem olha para um quebra-cabeças, ansiando a sua resolução usando a mente. Perdias a noção do tempo. E levavas boas chineladas à conta disso. A poeira da seara, o balir dos animais e o sol endiabrado pouco te diziam. Dizia tua mãe que” nasceste no ar, nada deves à terra”. Mãe compreende e aceita. Mas o teu pai tinha planos para ti. Era já homem envelhecido pela agrura do campo, das colheitas, da cortiça e do leite e da lã. Ainda duro e de postura taciturna, precisava de ajuda para dar conta do recado na lavoura, mas era demasiado orgulhoso para pedir. E assim sendo, tal como o seu pai tinha feito com ele, obrigava os seus filhos, três de cinco que ainda eram vivos, um para poliomielite, outro num acidente militar fatídico, a trabalhar para comer.
Tinhas outras expectativas, querias algo de diferente para ti, ainda que o intuito de tentares prosseguir os teus estudos fosse o de almejar uma vida melhor para os teus.
Os dias deram em meses, e esses em alguns anos. O vento suão que abanava as oliveiras e secava a tua pele,erguia agora uma carapaça do que pensaste ser para ti viver e que a ninguém o mostraste. Casaste, tomaste conta de teus pais quando definharam e partiram, sendo partículas que ainda ensombram os teus dias, ouvindo-os em noites de trovoadas secas, ralhando para pores água nos maceirões.
E hoje em dia tu próprio definhas. As costas não perdoam, nem o preço dos comprimidos para a tua diabetes, que tem que ser controlada diariamente. Picas o dedo, fechas os olhos e relembras os teus dedos de foice na mão, rasgando campos entre cantorias desgarradas e giestas que deixavam ensanguentada a tua mão trabalhadora.
Mas não largas o campo. O campo és tu e ele está dentro de ti, amém.
Os teus filhos partiram, procurando vida fora da terra esquecida pelo país. Tua esposa partiu também, à procura da paz eterna que encontrará mal tu lá chegues. Não tens pressa de ir. Aqui no Alentejo até a morte vem mais devagarinho. Vais passando o tempo plantando, colhendo e arranjando as bicicletas dos netos. António Maria, nasceste no ar, nada deves à terra. Morrerás na terra, nada deves ao céu.