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Há Em Nós Qualquer Coisa

Vidas de 400 palavras.

Há Em Nós Qualquer Coisa

Vidas de 400 palavras.

No caminho para casa.

 

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De pé pesado volta. O dia começou quando o sol ordenou, na magnificação da sua luz que tudo é e tudo forma, de despertador luminático, terminando quando o “show” de luzes se retira para dar a palco principal ao mundo escuro, pontilhado de estrelas e nuvens de negrumes. A jornada foi dura, cheia de desafios físicos que obrigam o cérebro a facilitar tais tarefas de dureza insubstituível. Ele é ovelha velha, poupa-se na sua sapiência, leva o seu tempo a realizar as tarefas. Sempre disse a quem o confronta que os alentejanos, de gema tal como ele, não fazem as coisas mais lentamente que qualquer outro ser humano. Qualquer tarefa envolve rigor e comprometimento, e para serem bem feitas demoram o seu tempo. Por isso é que o povo alentejano é o mais bonito do mundo: demora o seu tempo a ser produzido, e não são feitos à pressa como todos os outros... O ato de procriação, por aqui, é valorizado. E ajuda a criar as mais belas peças de arte de pele e carne que são conhecidas.

Continua o caminho. O tom sépia invade o espaço quente e seco. O som dos pássaros que fazem os voos rasantes pelo meio dos pequenos montes cheios de omnívoros que ruminam de forma ininterrupta. As ovelhas olham de forma desconfiada, mas sem denunciarem o seu “bluff” até quando passamos bem perto delas. Animal desafiador, que transgride as cercas que definem o seu espaço enfiando a cabeça do outro lado, procurando a erva mais nutritiva num ritmo infernal.

A serra ilumina o seu caminho, mesmo quando a luz deixar de ser. “Nossa Senhora da Penha / Que o meu caminho conduz / Leva o meu pecado / E mostra-me o caminho da luz.” Repete a oração em momentos de agrura, mas também de agradecimento. Repete sem parar, num “loop” incessante, em voz embargada pela emoção e pelos pensamentos que uma vida difícil, de provações e de alegrias lhe dá e tira em justa medida que só uma entidade dita superior pode distribuir.

O passo arrasta-se e faz da serra montanha. O coração aperta e o cheiro da carne frita invade-lhe o nariz e depois a alma. Está em casa. Come debaixo do teto que a vida lhe deu, levando o seu tempo a saborear a janta confecionada pela sua velhinha, companheira de sempre, para sempre.

Dá-lhe um beijo na testa, ela fecha os olhos e comungam ambos naquele momento de união singular.

Que a Senhora os conduza. Os leve do pecado. Que a sua luz os ilumine para sempre.