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Há Em Nós Qualquer Coisa

Vidas de 400 palavras.

Há Em Nós Qualquer Coisa

Vidas de 400 palavras.

Noventa Invernos.

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O tempo não para. Por mais que o tentemos acelerar nos momentos que nos custam a passar, ele não cede. Se o tentarmos abrandar, na vã expetativa de prolongarmos aquele pedaço de vida que se quer eterno, ele voa por nós, inexorável.

E em noventa invernos houve muitos que pareceram durar o tempo que o tempo quis, bem mais do que aquele que nos seria justo. O trabalho foi sempre muito, no meio do campo lavrado, das mãos gretadas pelas ferramentas usadas a contragosto, mas sempre sem facilitar, pois a certeza duma estação vindoura mais acolhedora fazia o mais inóspito homem do campo lançar-se no raiar do dia gelado em lides que afugentavam corpos mais inertes. O trabalho tinha que se fazer, inverno a inverno, cada vez com mais lentidão e menos certeza nos movimentos, com a curvatura da espinha dorsal com maior ênfase, como que se homenageasse a terra em sinal de obediência a quem lhe deu pão, teto e calor.

E eis que veio o inverno em que não houve mais invernos de labuta. As pernas enregelaram, subindo pelo tronco um frio que o tempo trouxe, que sempre traz. As mãos encarquilharam, como ramos secos que se desprendiam da foice e da pá. Chegou o tempo do inverno ser para curar as mazelas ao lume, contando vidas de outra vida e deixar um testemunho para quem fica, de que o ano termina no mais profundo inverno, mas que a seguir a ele vem a esperança primaveril que nos faz começar mais uma vez de novo a cada 365 dias.

Os invernos são noventa. Mas os atos de amor e compaixão que os aqueceu são muitos mais.

Feliz inverno noventa e um.