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Há Em Nós Qualquer Coisa

Vidas de 400 palavras.

Há Em Nós Qualquer Coisa

Vidas de 400 palavras.

O Atalaião.

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A certa altura, existia uma certa animosidade entre bairros sociais. O Bairro dos Assentos, o meu local de nascimento e vivência, chamados de Índios, e bem perto da cidade, os Cowboys, deste bairro de que hoje falo.

O Bairro do Atalaião representa a periferia dentro da cidade. De gentes humildes, trabalhadoras, muitos deles reformados. Muito unidos, confiando em si e no seu amigo, são de certa forma territoriais, pois detetam imediatamente alguém que não lhe pertença, seja de origem ou de mudança habitacional.

Sempre o encarei como o bairro que vigia a cidade, que toma conta de nós, que nos resguarda do vento de São Mamede, que sopra desertificação. Com as suas ruas de blocos brancos, que do alto dos seus terceiros andares vislumbram vida a acontecer.

E quando a saturação da habitação social parece descaracterizar o bairro... Aparece um pequeno apontamento floral, um parque diminuto com um banquinho onde podemos descansar, uma árvore com vida no chilrear constante dos pássaros, um local onde a vista para a cidade confirma que aqui sim, temos os verdadeiros miradouros da cidade, dignos dos roteiros turísticos. Aqui dorme-se, relaxa-se, vive-se.

O icónico Centro Popular dos Trabalhadores de São Cristóvão, que alberga gente na idade dourada, que fazem da sua permanência lá uma rotina que lhes faz bem, que lhes dá força e motivação para se levantarem da cama. Uma conversa e um café acompanhado do jornal desportivo partilhado, dando para longas conversas acesas de disputas rivais; um tinto que se bebe pela manhã, porque se gosta, ou porque se precisa, para ajudar a aguentar a vida a passar lentamente ou para dar força e coragem para mais um dia de trabalho; um jogo de "snooker" contra a malta mais nova, contacto entre gerações que não tem preço.

Por baixo deste edifício, temos o recinto desportivo, palco das melhores e mais agitadas noites de desporto, cultura e gastronomia que o nosso quente verão possui. São meses em que as festas se vão revezando, colaborando todos para que atinjam o sucesso, numa união que não é vista noutros lados da cidade. Um assa sardinhas, o outro serve imperiais, outro ainda vai limpando, há quem trate da logística, seja do futebol ou do agendamento da banda que anima, os vizinhos vivem a festa apesar do barulho. Toda a gente colabora. É um bairro que entende que há sacrifícios que têm de ser feitos para o bem de todos. É um bairro que entende o conceito de solidariedade como nenhum outro.

Mas não vive só de festas. Há uma pequena organização autónoma que por vezes permite aos seus habitantes enclausurarem-se nele mesmo, ignorando o resto da cidade.

Escola apetrechada, seja de meios e de alunos. Pequenas lojas e mercearias, que facilitam imenso a vida a todos os que sentem dificuldades em deslocarem-se à "longínqua" zona comercial na cidade. Restaurantes que noutros tempos foram alvo das mais altas condecorações.

Apesar de ser um bairro rival, não me parece nada um mau sítio para viver... O Atalaião gosta muito da cidade. Mas gosta, e bem, mais de si e de quem aqui vive.

 

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