O CCD.

Aqui no Alentejo é sintomático que com os primeiros pelos de barba vêm as primeiras amizades com segundas intenções, e é claro, o primeiro contacto com o lado proibido que estava confinado aos adultos. Falo das primeiras saídas à noite.
Ainda sem idade legal para consumir as primeiras cervejas, saíamos, esperançosos que aquela nota de quinhentos escudos que tínhamos merecido ao ajudar em casa ou no biscate com o pai, ou ao suportar uma "overdose" de carinho das avós, fosse suficiente para que alguém nos servisse álcool para parecermos fixes e confiantes no início da noite e espalhafatosos e agressivos pela noite dentro (chegar à meia noite era por vezes um desafio que não estava ao alcance do comum dos mortais).
O CCD facultava tudo isto e muito mais. A fazer lembrar o funcionamento do mais exclusivo dos clubes, este estabelecimento dirigido por funcionários da Fabrica de Lanifícios, apenas abria ao público em geral nas sextas-feiras das 21h30 às 24, impreterivelmente.
Lembro-me do entusiasmo da viagem de autocarro das 21h15 que vinha do bairro dos Índios, a eletricidade vibrante nos corpos adolescentes que enchiam a traseira da viatura, todos com o mesmo objetivo: sair na paragem da Moagem, descer um pouco a pé, e simplesmente desfrutar das bebidas a preço bem em conta, destacando o bagaço e a vodka laranja, a música excessivamente alta e de gosto duvidoso, o Beto a falar com o Metaleiro, Assentos e Atalaião juntos numa equipa de sueca, ricos e pobres em comunhão etílica, cidade e periferia juntas como uma só.
O tempo e a vida paravam naquelas três horas semanais, e a igualdade era a palavra de ordem. Ao sairmos dali, uns para casa, outros para o Alibas ou PBX, o mais provável era não nos voltarmos a encontrar. Sexta vamos lá?
(Dedicado ao Grupo de Facebook "Amigos do Largo)