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Há Em Nós Qualquer Coisa

Vidas de 400 palavras.

Há Em Nós Qualquer Coisa

Vidas de 400 palavras.

O fruto de Joaquim.

 

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Da terra nasce a vida. É nessa terra implacável mas benevolente que o mundo nasce todos os dias com força para girar neste carrossel eterno. Na dureza dos seus socalcos, mulher e homem enrijam pele, carapaça que não permite que saia primeiro o sorriso ao que não se conhece. E na brandura do tempo, que passa mais devagar para quem vê o mundo a mudar muito depressa.

Por onde que sol e lua toquem, a oliveira está lá. E Joaquim também. A força que usa de vara na mão já não é a mesma, enquanto fustiga os ramos delicados na colheita do fruto e óleo essencial, mas continua certeiro, disfarçando a menor destreza no cimo do Alentejo em forma de árvore.

 Joaquim já se dobra com dificuldade, porque a vida o fez vergar-se uma e outra vez. Ergueu-se e levantou-se em cada uma delas. Mas o sangue dele tem acidez suficiente para responder na mesma moeda a quem o tentou destruir. É sangue doce também, porque a família coloca-se sempre em seu redor, por mais longe que as vidas os tenham colocado. E naquela quinzena de novembro, todos voltam para junto do seu íman e das azeitonas. O retorno financeiro da apanha é insignificante, mas o emocional une e reforça todas as raízes que a distância possa ter secado.

O pano estende-se à medida de Joaquim. O ensinamento vai sendo partilhando um ramo de cada vez. As oliveiras são como as pessoas: de vez em quando, têm que ter a capacidade de se deitarem abaixo, voltarem à terra, às suas bases, para que possam novamente florescer, crescer em toda sua glória, de verde esperança em dias melhores.

Ensacam-se de balde em balde, compartimentam-se pequenos momentos que antecedem a transformação em que os pequenos bagos de vida verdes e pretos vão dar origem a tantas mezinhas milenares, a inúmeros pratos tradicionais, a tanta vida que Joaquim preza, pois é este o líquido dourado que faz a sua vida sentida fazer sentido.

Para o ano cá estarás, Joaquim, de vara na mão, de boina carcomida pelo tempo e pelo sol. E os teus cá estarão para ti. E apesar da chuva que tarda em cair do céu, que te mantenhas forte e viçoso como a oliveira alentejana.