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Há Em Nós Qualquer Coisa

Vidas de 400 palavras.

Há Em Nós Qualquer Coisa

Vidas de 400 palavras.

O Leão d'Ouro.

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Não nego que esta memória é daquelas que dói ao escrever. Dói por ver o que foi e como está. Ou neste caso, não está. Como se assistíssemos em "slow motion" à implosão de um sítio que muitos consideravam porto de abrigo, e com ele vidas do antigamente reduzidas a um lugar abandonado. Enfim, recordemos o bom que por se lá viveu e que recusamos deixar fugir do nosso pensamento.

O Bar Leão d'Ouro albergava diferentes tipos de público, e era por isso que toda a gente o frequentava, numa qualquer parte da sua vida. Havia uma espécie de grupo, que vou apelidar de residentes, que vivia o Leão de uma forma que poucos faziam: era claramente uma primeira casa, servindo o António como seu progenitor, que os alimentava com os seus cachorros, que os hidratava a imperial e sangria, que lhes dava um sítio para dormir ou apenas descansar um pouco, naquela exígua cozinha. Lá estudavam em grupo para os testes, preparavam as festas da semana seguinte, sendo eles os dinamizadores das mesmas, jogavam e zangavam-se às cartas, vibravam e apupavam futebol, elaboravam dissertações escolares nos intervalos de uma jogatana de matraquilhos. As mesas à entrada pertenciam-lhes, como direito adquirido.

À medida que avançavamos na sala, outras falanges de pessoas eram descobertas. Os "snipers", atiradores de setas profissionais, não pela sua qualidade no jogo mas no tempo e no número de moedas dispensadas na máquina entre rodadas de médias. Escusado será dizer que com o avançar da noite, a mira descia muito de qualidade.

Junto ao balcão, os inveterados do café e dos "shots". Pareciam antagonistas mas acabavam por se confundir. Porque quem chegava e pedia um café, dizendo que ia embora daí a 5 minutos, duas horas mais tarde já gritava por mais uma série de "kalashnikovs", forte no amargo do limão e no aliviar do açúcar em chamas. E aqueles que iniciavam a noite com o desígnio de se embebedar com pequenas doses de etanol engarrafado, terminavam a noite com um café para se recomporem. Isso, ou com uma visita ao WC, bem pequena, que assim aparava os clientes mais instáveis.

Junto ao "pinball" e aos "matrecos", habitavam os nómadas, malta que rodava de bar em bar, na procura incessante de mais álcool ou companhia amorosa.

Recordo com saudades títulos do Benfica lá festejados, encontros de amigos e canecas, noites de folia e tardes de ressaca...

As causas para o seu desaparecimento são-me desconhecidas. Mas que me dói quando por ali passo, dói. Custa o definhar de que padece, e da sua aparência que todos recordamos... Nada resta. Cabe-nos manter a sua alma viva nas nossas memórias.

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