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Há Em Nós Qualquer Coisa

Vidas de 400 palavras.

Há Em Nós Qualquer Coisa

Vidas de 400 palavras.

O Manel e a Maria.

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(Este texto não correponde à realidade do casal da fotografia. O seu anonimato foi garantido. Esta é apenas uma estória que tem certamente pequenas partes que se podem ligar a muitos dos nossos reformados.)

O Manel e a Maria caminham pelo Tarro. De saco de medicamentos na mão, perscrutam o seu interior na esperança de que nada falte: coração, fígado, diabetes e cataratas na mão de pequenos comprimidos de diversas cores, com tamanhos avulsos e com bulas que apresentam mais contra-indicações que benefícios. "Toma-se um comprimido para que outro não faça mal", comenta Maria de voz arrastada e sequiosa.

Manel é mais reservado. Mancando da perna direita, devido a um acidente de trabalho com um fardo de palha que quase o esmagou. Trabalhador no campo, fez um pouco de tudo desde os oito anos de idade: manageiro, pastor, hortelão, o monte do patrão era seu de tomar conta. De fiel cigarro na boca desde tenra idade, Manel encontrou no tabaco a sua emancipação de rapazola franzino a homem feito, de barba aparada e cabelo rapado, fumando ainda décadas depois. Caladão, diria Maria, pois a vida foi dura e de trabalho de sol a sol. A escola nunca foi uma realidade, e as letras e os números parecem-lhe hieróglifos egípcios, de incompreensão total. Manel nem olha para as receitas. Diz que lhe fazem dores de cabeça, seja pela letra pequena que obriga os olhos a semicerrarem-se, seja pela cara de aflição que Maria põe a cada deslocação à farmácia. A doutora vai fiando, mas as receitas multiplicam-se, e as parcas reformas pouco dão para mais do que sopinha e mimos para os netos. Os filhos não conhecem o espetro da sua realidade. Eles não têm tempo para se preocuparem, desvia Manel. Têm outros problemas. O pai sempre fez tudo para que nada lhes faltasse, e ele e a Maria já tinha vivido com menos. É assim a vida...

Maria é uma força da natureza. Desde nova que lhe diziam que ia ser professora, pois adorava crianças e tinha um gosto por partilhar o que sabia. Os seus pais tinham comprado um rádio a um antigo caseiro, e Maria deliciava-se a absorver informação, toda a que conseguisse sacar da onda média. Música clássica, discursos políticos. Tudo tinha algo que Maria aproveitava para construir conhecimento para si e para os seus. Fez a quarta classe, mas o seu pai não permitiu que ela continuasse a estudar. Não via futuro naquilo, e ela iria servir num monte, como as suas quatro irmãs o fizeram. Maria revoltou-se, queria mais. Conheceu Manel num baile, olharam-se... E fugiram. Nunca mais Maria falou com os pais, e os pais renegaram-na como filha. Ela nunca se arrependeu. Manel deu-lhe espaço para crescer, para ser ela na sua plenitude. Deu-lhe filhos, carinho, felicidade. Foi a melhor decisão da sua vida. Vive com problemas de coração. Defeito congénito que agora, com o avançar dos anos, piora a olhos vistos. Sorri, conversa e exalta, sofrendo em silêncio. Manel não aguentaria saber que lhe restam poucos meses de vida. Aquele homem de carapaça dura formada pela vida que levou não aguentaria tamanha desgraça. São um amparo um do outro. Que seria dele sem ela?

Toda a vida caminharam. De passo certo e seguro, alavancado por sessenta anos de união e conquistas, de filhos criados, com estudos e bem na vida, de netos já crescidos que estudam fora e aparecem menos do que gostariam, de guerras coloniais que puseram o seu projeto de vida em comum à prova, de uma ditadura que obrigava a dividir a sardinha e a cochichar em vez de falar. Mas nunca parando. Caminhando sempre, olhando com desconfiança para o futuro, mas com uma fé inabalável que Deus providenciará.

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