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Há Em Nós Qualquer Coisa

Vidas de 400 palavras.

Há Em Nós Qualquer Coisa

Vidas de 400 palavras.

O Quiosque dos Assentos.

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Os residentes do bairro tinham uma relação muito especial com este pequeno quiosque verde, reformado de azul muito anos depois, antecedendo o seu declínio e encerramento.

A romaria ao Quiosque do senhor João, ele próprio uma figura icónica do bairro e do seu valoroso trabalho no comércio do bairro, adoçando-nos a boca há décadas, tinha dois momentos em que dividiam a azáfama do pequeno ponto junto à primeira paragem de autocarros.

Pela manhã

O menino, de mães e pais acompanhados, pediam uma carteirinha de cromos da caderneta de futebol da época, na esperança de encontrar o autocolante raro que serviria de inveja a todos os colegas. O cromo nunca colado, muito exibido e fartas vezes roubado...

A adolescente, que se enamorava pelas capas da Bravo, onde as "boybands" eram estrelas, partindo corações e fazendo suspirar as imberbes catraias, acompanhadas de pulseiras e outros adereços de cores garridas, que as faziam lançar-se em súplicas maternais para gastarem 500 escudos em fotos de rapazes e artigos sobre o mundo glamoroso do entretenimento.

O residente pendular do bairro, que comprava as notícias do dia para se atualizar sobre o país e o mundo na pausa para café ou então no fim do dia. Isto numa época onde a informação era escolhida e selecionada, obrigando-nos a procurá-la, sem sermos alvos de ataques sensacionalistas de pseudojornalismo... Outros tempos, diz aqui o cota.

O dedicado reformado, que dava a sua volta matinal, encontrando os seus pares neste verdadeiro ponto de encontro de gerações, pedindo uma água fresca para aligeirar o calor, ou um chocolate quente que aquecia gargantas e almas, sempre acompanhados de um sorriso e dois dedos de conversa simpática.

Pela noite

Adolescentes, mais rapazes que raparigas, juntavam-se no Quiosque para um momento de cavaqueira e confraternização entre ruas, depois de acalorados jogos noturnos no Poli dos Assentos. Ali esqueciam-se os lances duvidosos e as porradas distribuídas ou recebidas dentro de campo. Havia uma aura de tranquilidade e sossego enquanto se saboreava um Epá, ou para os de finanças menos abonadas, os famosos rebuçados frutados de um escudo, que se lambuzavam pelo plástico envolvente de açúcar derretido.

No Carnaval, o rei dos disfarces, bisnagas e bombinhas de mau cheiro tinha aqui o seu reino. Num espaço tão exíguo, que pouco parecia albergar, registava uma panóplia considerável de artigos para a folia. Era como se assistíssemos ao perfeito jogo de "Jenga", a alguém que seria certamente o melhor representante na arte do "Tetris" dos produtos. Bastantes patifarias sem maldade foram feitas por essas ruas dos Assentos durante a noite...

Enfim, a arte de bem servir, receber e tratar foi levada à perfeição neste pequeno espaço de dimensão mas enorme de coração. Obrigado ao senhor João pelas boas memórias que nos deixou e pela marca positiva que teve na vida de toda a gente que fala com saudade do tempo em que comprar um gelado ou uma revista era acima de tudo um ato de socialização. 

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