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Há Em Nós Qualquer Coisa

Vidas de 400 palavras.

Há Em Nós Qualquer Coisa

Vidas de 400 palavras.

Odeio Portalegre.

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Odeio Portalegre.

 

Odeio Portalegre. Que raio de lugarejo. Haja paciência. Aqui fica uma enumeração de coisas avulsas que me faz fervilhar o sangue na cidade das serras.

Portalegre de coração puramente alentejano não tem sotaque, já ouvi dizer. O que faz das pessoas daqui sucedâneos de alentejanos, arraçados de Beira. Que nervos, não sabem o que querem ser. Ora são sapientes e pacientes, como só uma vida que vai passando a seu ritmo conhece, arrastando a fala e dando nova roupagem sonora a letras que a escola não nos ensinou assim, ora são acolhedores sem eira nem Beira, que sempre souberam que o querer bem aos outros é fazer bem a eles próprios. Que destino. Querem o melhor dos dois mundos, é? Odeio.

Portalegre é parado e nada cá se faz. Que pasmaceira de cidade que parou no tempo.

 Claro, têm as melhores vistas do mundo ecoadas por música clássica em festivais internacionais, criando um íman para quem vem e quer vir, ano após ano. Parece dependência de cultura, não se percebe.

 Têm ainda os milhares fãs de rodas e lama que se deslocam sem autoestrada até cá para verem os melhores pilotos nacionais e mundiais a fazerem pó e gáudio de quem puxa por eles.

Bom, têm também a capacidade engenhosa de trazer milhares de pessoas para correr durante quilómetros a fio nas nossas terras e terriolas, com a desculpa de que sabemos receber e aquecemos as almas de quem nos visita de meias de compressão calçadas.

 OK, têm festas, festinhas e festarolas todo o ano, que promovem o melhor que se faz no distrito, em que cada terrinha tem o dom de fazer toda a gente ser bem recebida numa celebração religiosa ou pagã, em que todos são nascidos e criados por aqui, nem que seja por uma noite bem regada de vinho, petiscos e música até o dia raiar.

Pormaiores. Desculpem, pormenores que em nada mudam a opinião que tenho sobre esta gente de determinação de ferro a quem ninguém dá nada. Portalegre irrita porque vive no marasmo da desertificação. Porque apesar de muitas vezes injustiçados, não desistem e lutam e escarafuncham e fazem trinta por uma linha para que nada lhes falte, para que nada falte a quem os visita. Raio da hospitalidade, raio do carinho pelos outros.

Já para não falar naquelas almas sortudas que daqui saem, que vingam, que constroem um mundo fora daqui na vã esperança de um dia voltarem ao seu epicentro de amor. Voltar para quê? Só porque têm as raízes que nunca os abandonam, apesar da distância física, aqueles ramos fortes em amor e complacência, que não partem mais? Bah. Mariquinhas ligados à família, à terra, à calma.

Odeio Portalegre. Espero que a odeiem tanto ou mais que eu. Mas digo-vos já que não vai ser fácil.

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