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Há Em Nós Qualquer Coisa

Vidas de 400 palavras.

Há Em Nós Qualquer Coisa

Vidas de 400 palavras.

Os novos Cruzados.

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Não me considero a pessoa mais crente. Seja no que for. Nas pessoas, em entidades envoltas na neblina da dúvida, no governo. Nem acredito muito bem no que vejo, porque os nossos olhos e cérebros pregam-nos partidas à medida que os anos passam.
Mas prezo muito quem acredita. Invejo até. O acreditar em algo, de forma tão forte, inamovível e com tanta dedicação fascina-me.
Aqui entram os peregrinos. Calcorreando o país, munidos de mochila, ténis confortáveis e muita, muita fé. O objetivo é certamente a chegada, a visita à Sua Senhora. Mas este caminho percorrido à custa de muitas bolhas, intempéries, noites mal dormidas e aparente desapego por famílias é certamente muito mais do que um simples registo dum caminho do ponto A ao Ponto B.
Refiro-me aqui à ligação criada entre as pessoas que partilham este caminho de Fátima. O apoio que providenciam uns aos outros, sejam amigos de longa data ou familiares, ou perfeitos desconhecidos que encontram no ombro de alguém o conforto e a força para superar mais um dia de caminhada extenuante.
A logística criada por outros crentes que ajudam outrém a ajudar-se é de uma generosidade que toca a mais fria das almas. Um chá quente, uma refeição retemperadora, aquela massagem nas pernas fustigadas, o canto duma casa para espalhar ao comprido o corpo no pouco confortável saco-cama. Todas pequenas coisas, pequenos gestos que fazem toda a diferença.
O caminho faz-se caminhando bem cedo, entre serras que sobem ao céu, no meio de estradas demasiado estreitas para comportarem peões, com rezas e canções e gargalhadas que animam aquele que teria pensado em desistir. O caminho termina sempre tarde, depois de umas boas dezenas de quilómetros ultrapassados, sempre de bem com a vida e com Deus, apesar das agruras que o caminho da vida lhes pôs.
O que mais me surpreende? Numa sociedade presa ao dinheiro e às mesquinhices da pequenez humana, onde o material é sempre interpretado como mais importante que o espiritual, encontramos estes nossos cruzados nas suas demandas, cumprindo as suas promessas. Mas quase sempre levam recados de outros, encomendas de queima de velas e promessas de quem já não consegue cumprir este caminho. Esta é a verdadeira forma de ser do Peregrino. Agradecer por si, mas essencialmente agradecer pelos outros.
Força nas sapatilhas, caros peregrinos. E que a fé vos acompanhe sempre.