Professores não deviam ter filhos.

Declaração chocante? Nada disso. Se me arrependo de ter tido a minha Alice? Respondo-vos com outra pergunta: porque é que acham que fui pai somente aos quarenta anos?
Sou um profissional cumpridor e um péssimo pai. Não fui talhado para criar a minha descendência. No entanto, pareço fazer um trabalho meritório com as crias dos outros.
É isto que ouço todos os dias em intermináveis grupos de Whatsapp, conversas de algibeira disfarçadas de simpatia, até que as verdadeiras intenções se revelam. “Porque é que o meu filho...?”, “Mas o... tem direito?”, “Porque não lhe dão a sopa?”, “Ele cá em casa não faz isso!” – pequena amostra de um universo de responsabilidades que são aparentemente do pai professor e não do pai. Como deve ser, como toda a gente pensa ser.
Professores não deviam ter filhos, ponto final. Consome-lhes demasiado tempo, moeda de troca de inequívoca importância. Poderiam estar a papelar, documentar. Sim, cunhei estas expressões. Papelar e documentar são hoje em dia mais importantes do que o próprio trabalho de sala de aula. Justifica-se tudo com um modelo pré-definido, usa-se um papel para falar de outro papel, criam-se três documentos para substituir outros três, simplificando a nossa vida como senhores e senhoras de três meses de férias. O Simplex é lindo!
Do que nos queixamos? Os professores nunca podem deixar de o ser! Isso da indisciplina é um mito, um engano, uma falácia. Falta espinha dorsal! Como educar dois ou três pirralhos em casa, se não dão conta de vinte e alguns santos numa sala de aula munida de todas as condições para que a mais simples das missões, ensinar, seja desempenhada? Ou agora também precisam de aquecimento, projetor, internet, espaço, ajudas para alunos com maiores dificuldades, empatia, dois dedos de testa? Eu ainda sou do tempo de ver filmes em que os alunos são cativados apenas pelo som inebriante da voz de professores que se sentam em cima de secretárias. Haja decoro, colegas.
Filhos? Nem pensar. Passamos a vida em juntas médicas. Um pequeno abalo de saúde, um ligeiro toque oncológico, uma mini depressão. Tudo nos serve para não ir trabalhar. Colegas, com aquilo que os meios de informação dizem que ganhamos, não temos cá tempo para nos queixar; é ir enganando as “doençazinhas” com auto-medicação e água benta vinda de Fátima. Vai tudo correr bem. É deixarem de ser piegas.
E aquela converseta da instabilidade? Companheiros, foram precisos apenas vinte e um anos para passar a ser Quadro de Zona Pedagógica. A vida é um sopro e esta vintena passou a voar! Faca nos dentes/fio da navalha, casa às costas, lotarias anuais, planos adiados, vidas moldadas em torno duma segurança que teima em não vir. E bem! Que depois de terem rendimento fixo, os maganos dos profs têm tendência em relaxar... É fazer contas: a minha tardia filha cumprirá o ensino secundário e o seu sempre jovem papá terá a linda idade de 59 anos. Tudo porque não lutei o suficiente para a ter mais cedo. Fui demasiado (doce)nte.
Assim sendo, colegas: vejam se atinam. E atenção à cena da procriação. Vêm para aí muitos miúdos e somos cada vez menos. Sem desculpas, ok? Era o que a Maria de Lurdes e o Crato quereriam.