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Há Em Nós Qualquer Coisa

Vidas de 400 palavras.

Há Em Nós Qualquer Coisa

Vidas de 400 palavras.

Ser imperfeito em oração.

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De olhos semicerrados, desconfiado com o mundo que ajudei a tornar pecador, autor de pecados me confesso. Com as mãos unidas, interligação de dedos frágil e trémula,  procuro o calor de uma chama maternal, que me diga que tudo vai correr bem, apesar dos erros e das maleficências. De joelhos firmados no chão que viu nascer e que me consumirá, falo com quem me ouça, etéreo ou carnal.

Povo, me confesso. Em momentos compactuei com o injusto e o maldizente. Optar pelo silêncio não é pecado menor. Por todas as mulheres que vi serem ofendidas, maltratadas na sua integridade física e mental, olhando para o lado. Ignorar também se castiga. A todas, peço perdão.

Povo, me acuso. Em certas alturas da minha vida inconsequente julguei sem pensar ou perceber. Deixei-me levar pelas palavras de homens para homens, palavras duras que me congeminaram a conhecer alguém sem verdadeiramente o ter conhecido, a julgar alguém por atos semelhantes a outros que já pratiquei, julgando ser possuidor da auréola divina. A todos, peço indulgência.

Povo, me retrato. Na inocente visão da vida, do mundo e das relações que os mais novos, que o nosso futuro tem, me perdi. O mundo deles tem apenas, e ainda bem, as cores do espetro feliz, pantone cru do que é ser criança. Sem malícia, subterfúgios, segundas intenções. Sente-se o que se diz, sem filtros sociais. E por vezes castrei essa liberdade, sem saber na altura que quanto mais perto o nosso corpo fica das folhas do conhecimento da vida adulta, mais se alonja das raízes da nossa meninice. Até ao ponto de não retorno. A todos e todas, peço expiação.

E depois de orar, depois de abertos os olhos para um novo mundo que ajudamos a inovar, depois de dedos formando punhos para seguir com a vida e de pé, passo a passo, tornar esta oração não apenas palavras, mas sim ações concretas e genuínas dum ser imperfeito mas em eterna construção.

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